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Tarifa Zero pode ampliar acesso à saúde e reduzir desigualdades sociais, aponta estudo da UnB

Pesquisa indica que gratuidade no transporte público favorece tratamentos médicos, fortalece inclusão social e pode gerar impactos positivos...

Pesquisa indica que gratuidade no transporte público favorece tratamentos médicos, fortalece inclusão social e pode gerar impactos positivos na economia brasileira

Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil

A implantação da tarifa zero no transporte público pode representar muito mais do que uma mudança na mobilidade urbana. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) aponta que a gratuidade universal nos ônibus tem potencial para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, reduzir desigualdades sociais e raciais e impulsionar a economia nacional.

Brasília (DF), 09/08/2023 - Movimentação de passageiros e ônibus na Rodoviária do Plano Piloto. Nos dias 8 e 9 de agosto acontece, em Brasília, o 36º Seminário Nacional de Transporte Urbano, em que empresários, entidades de classe, especialistas e representantes de governo debatem as mudanças necessárias no setor. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

O levantamento revela que o custo das passagens e a precariedade dos sistemas de transporte continuam sendo obstáculos para milhões de brasileiros que dependem diariamente dos ônibus para trabalhar, estudar e buscar atendimento médico. Segundo os pesquisadores, essas dificuldades afetam diretamente a qualidade de vida e comprometem o acesso a direitos básicos.

Distância e custo dificultam continuidade de tratamentos

A realidade enfrentada por milhares de usuários do transporte público foi retratada pelo estudo por meio de relatos de moradores da região metropolitana de Brasília.

Entre eles está a auxiliar de serviços gerais Núbia Sales Veras, de 52 anos, residente em Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal. Todos os dias ela percorre cerca de 50 quilômetros para chegar ao trabalho no Lago Sul, uma das áreas mais valorizadas da capital federal.

Além da longa viagem, Núbia convive com os desafios impostos pelo custo elevado das passagens e pela demora dos ônibus. Segundo ela, essas dificuldades já provocaram faltas em consultas e comprometeram o acompanhamento de seu tratamento contra fibromialgia.

O impacto financeiro também influencia outras áreas da vida familiar, limitando o acesso a atividades culturais e oportunidades educacionais.

Transporte precário afeta saúde física e mental

O estudo intitulado Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços destaca que problemas como superlotação, atrasos, insegurança e longos deslocamentos afetam diretamente a saúde da população.

De acordo com os pesquisadores, a dificuldade de locomoção contribui para o atraso de diagnósticos, faltas em consultas médicas e interrupção de tratamentos preventivos e contínuos.

Além disso, trajetos extensos e desgastantes podem aumentar níveis de estresse, ansiedade e sofrimento psicológico, agravando problemas de saúde mental em regiões metropolitanas.

Desigualdades raciais ampliam impacto da mobilidade urbana

Os pesquisadores chamam atenção para o fato de que os efeitos negativos da falta de acesso ao transporte atingem de forma mais intensa a população negra.

Segundo o relatório, pessoas negras estão majoritariamente concentradas em regiões periféricas, possuem menor renda média e dependem mais do transporte público para acessar serviços essenciais.

Essa combinação cria barreiras econômicas e territoriais que dificultam o acesso a hospitais, escolas, oportunidades de emprego e demais equipamentos públicos.

O estudo cita dados do DataSUS que demonstram, por exemplo, que mulheres negras apresentam risco de morte materna significativamente superior ao de mulheres brancas, cenário que pode estar relacionado às dificuldades de deslocamento e acesso aos serviços de saúde.

Tarifa zero é vista como política de inclusão social

Para os autores da pesquisa, a eliminação do custo da passagem pode se transformar em uma política pública estruturante, com efeitos semelhantes aos observados em programas sociais de grande alcance.

A avaliação é que a tarifa zero universal reduziria uma das principais barreiras de acesso à cidade, permitindo maior circulação da população e ampliando o acesso a serviços de saúde, educação, cultura e trabalho.

Segundo os pesquisadores, a medida teria capacidade de enfrentar desigualdades históricas relacionadas à segregação urbana e ao acesso desigual aos serviços públicos.

Impacto econômico pode chegar a R$ 60 bilhões por ano

Além dos benefícios sociais, os estudos realizados pelo grupo da UnB apontam efeitos econômicos expressivos.

Uma pesquisa anterior desenvolvida pelos mesmos especialistas estima que a implementação da tarifa zero nas 27 capitais brasileiras poderia injetar aproximadamente R$ 60,3 bilhões por ano na economia nacional.

O volume de recursos permaneceria disponível para consumo das famílias, movimentando diferentes setores econômicos e ampliando o poder de compra da população.

Para os pesquisadores, o impacto potencial da medida poderia ser comparado ao efeito de grandes programas de transferência de renda, contribuindo para estimular a atividade econômica e reduzir desigualdades.

Debate sobre mobilidade ganha força no país

O avanço das discussões sobre tarifa zero ocorre em um momento em que diversas cidades brasileiras avaliam alternativas para tornar o transporte público mais acessível e eficiente.

Especialistas defendem que a mobilidade urbana deve ser tratada como um direito social e não apenas como um serviço pago pelo usuário. Nesse contexto, a gratuidade universal surge como uma proposta capaz de transformar a relação da população com os espaços urbanos e ampliar o acesso aos direitos fundamentais.

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