Dados do Censo 2022 revelam desigualdade persistente no acesso à educação e na inclusão escolar, apesar de avanço no ensino superior Por Mat...
Dados do Censo 2022 revelam desigualdade persistente no acesso à educação e na inclusão escolar, apesar de avanço no ensino superior
Por Matheus Salomão - Redação Tribuna do Brasil
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A taxa de analfabetismo entre jovens e adultos com deficiência, de 15 a 29 anos, atingiu 12,2% em 2022, segundo dados do Censo Demográfico 2022, divulgados nesta sexta-feira (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice é 12 vezes maior que o registrado entre pessoas sem deficiência na mesma faixa etária, que foi de 1%.
Os números evidenciam uma desigualdade estrutural de acesso à educação, que não pode ser explicada apenas pelo envelhecimento da população com deficiência, avalia o IBGE.
Desigualdade não é só geracional
A pesquisadora do IBGE Luanda Botelho lembra que, historicamente, pessoas com deficiência sempre apresentaram taxas mais altas de analfabetismo, em parte devido à maior concentração desse grupo entre idosos, que pertencem a gerações menos escolarizadas.
Mas, ao analisar especificamente os jovens de 15 a 29 anos, o Censo mostra que a disparidade vai além do fator etário.
“Sabe-se que, historicamente, elas têm uma taxa de analfabetismo mais elevada do que as pessoas sem deficiência. Parte dessa diferença decorre da maior concentração de pessoas com deficiência entre os idosos (…). Contudo, esse enfoque nos jovens consegue acrescentar que a desigualdade entre as pessoas com deficiência e sem deficiência não se resume só à questão geracional”, destaca Botelho.
Tipos de deficiência com maior e menor taxa de analfabetismo
O levantamento revela que o analfabetismo é particularmente elevado em alguns grupos específicos:
Dificuldades associadas às funções mentais:
- taxa de analfabetismo de 40,4%;
Pessoas com mais de um tipo de deficiência:
- índice de 34%.
Mesmo nos tipos de deficiência com menores taxas, a desigualdade permanece acentuada em relação à população sem deficiência. Entre aqueles com:
alguma dificuldade de enxergar:
- analfabetismo de 3,5% – mais de três vezes o índice dos sem deficiência (1%);
dificuldade de ouvir:
- taxa de 10%;
dificuldade de caminhar ou subir escadas:
- índice de 23,3%;
dificuldade de pegar objetos pequenos:
- taxa de 31,3%.
Os dados indicam que barreiras pedagógicas, arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais ainda afetam fortemente a trajetória escolar de pessoas com deficiência, mesmo nas gerações mais jovens.
Frequência escolar ainda é menor entre estudantes com deficiência
A desigualdade também aparece na frequência escolar, em faixas etárias em que a presença na escola deveria ser praticamente universal.
Em 2022, entre pessoas com deficiência:
crianças de 6 a 14 anos:
- frequência escolar de 92,6%;
jovens de 15 a 17 anos:
- frequência de 79,5%.
Entre pessoas sem deficiência, os índices são mais altos:
- 6 a 14 anos: 98,4%;
- 15 a 17 anos: 85,4%.
O quadro é ainda mais crítico no grupo com deficiência profunda – pessoas que não conseguem de forma alguma escutar, ver, pegar objetos ou caminhar:
- 6 a 14 anos: frequência escolar de 82,3%;
- 15 a 17 anos: 65,6%.
Ou seja, justamente quem mais depende de apoio especializado e acessibilidade plena é quem menos está incluído no sistema escolar.
Estrutura das escolas: acessibilidade ainda é parcial
Dados do Censo Escolar 2025 ajudam a explicar parte das dificuldades de inclusão. Segundo o levantamento:
- 57% das escolas tinham banheiro acessível;
- 30% contavam com sala de recursos multifuncionais;
- 26,2% dispunham de profissional de apoio.
Ao considerar escolas que têm ao menos um desses recursos, a cobertura sobe para 78,5%, mas ainda há lacunas importantes, especialmente quando se observa a diferença entre redes:
Banheiros acessíveis
- Rede privada: 64,4%;
- Rede pública: 54,8%.
Profissional de apoio (intérpretes, cuidadores, apoio pedagógico especializado etc.)
- Rede pública: 32,8% das escolas;
- Rede privada: 4,6%.
Salas de recursos multifuncionais (para atendimento educacional especializado)
- Rede pública: presentes em 34,5% das escolas;
- Rede privada: apenas 15,2%.
Os números mostram que:
- a rede privada tende a ter mais infraestrutura física acessível (como banheiros adaptados);
- a rede pública concentra mais recursos pedagógicos especializados e profissionais de apoio, apesar de ainda atender a uma parcela limitada do total de estudantes com deficiência.
Presença no ensino superior quase triplica em uma década
Apesar das desigualdades na educação básica, houve avanço relevante no ensino superior. Entre 2014 e 2024, o número de estudantes com deficiência matriculados em cursos de graduação quase triplicou:
- passou de 33.377 para 95.572 alunos.
Em termos proporcionais:
- a participação desses estudantes no total de matrículas de graduação subiu de 0,43% para 0,93%.
O crescimento foi impulsionado principalmente pelos cursos de graduação a distância (EAD):
- matrículas presenciais passaram de 26.637 para 50.609 (quase dobraram);
- matrículas em cursos a distância cresceram mais de seis vezes, de 6.740 para 44.963.
Esse movimento indica que o ensino remoto pode estar abrindo novas possibilidades de acesso à educação superior para pessoas com deficiência, reduzindo barreiras físicas de deslocamento e ampliando a oferta de cursos em diferentes regiões.
Desafio permanente de inclusão
Os dados do Censo 2022 e do Censo Escolar 2025 reforçam que, embora haja avanços pontuais – especialmente no ensino superior e em algumas estruturas de acessibilidade –, o Brasil ainda convive com:
- taxas de analfabetismo muito mais altas entre pessoas com deficiência, inclusive jovens;
- menor frequência escolar justamente nos grupos que mais necessitam de suporte;
- infraestrutura escolar e redes de apoio insuficientes para garantir inclusão plena.
Especialistas em educação inclusiva alertam que superar esse quadro exige:
- investimento contínuo em formação de professores;
- ampliação de salas de recursos e profissionais de apoio;
- aprimoramento de materiais acessíveis (braile, Libras, audiolivros, tecnologias assistivas);
- e políticas públicas que acompanhem esses estudantes ao longo de toda a trajetória escolar, do ensino básico ao superior.
TAGS: PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, ANALFABETISMO, CENSO 2022, IBGE, EDUCAÇÃO INCLUSIVA, ACESSIBILIDADE, CENSO ESCOLAR 2025, ENSINO SUPERIOR, EAD, JUVENTUDE, POLÍTICAS PÚBLICAS, BRASIL
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