Levantamento da Amib e CFM mostra quase metade dos intensivistas com desgaste emocional elevado e baixa satisfação com o trabalho, especialm...
Levantamento da Amib e CFM mostra quase metade dos intensivistas com desgaste emocional elevado e baixa satisfação com o trabalho, especialmente na rede pública
Por Matheus Salomão - Redação Tribuna do Brasil
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Quase metade dos médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil apresenta alto nível de esgotamento mental e emocional, e uma parcela semelhante declara baixo grau de satisfação com o próprio trabalho. Os dados são do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e divulgado nesta sexta-feira (18).
O estudo ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal e aponta um quadro de forte vulnerabilidade à síndrome de burnout, caracterizada por exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa realização pessoal.
Quase 80% exigem atenção à saúde emocional
De acordo com o levantamento, 79,7% dos médicos de UTI requerem algum grau de atenção e cuidado com a saúde emocional:
- 31,2% relataram esgotamento moderado;
- 48,5% indicaram alto nível de desgaste.
Apenas 20,3% disseram experimentar baixos níveis de esgotamento emocional.
Para a Amib, esse cenário está associado a fatores como:
- jornadas de trabalho extensas;
- exposição contínua a situações críticas e de alta pressão;
- precariedade de infraestrutura em muitos serviços;
- demanda crescente da população frente a uma rede limitada de cobertura;
- contato diário com dor, sofrimento e morte;
- necessidade de decisões rápidas e precisas, muitas vezes em ambiente de incerteza.
A entidade enfatiza que a saúde mental dos profissionais de terapia intensiva não pode ser tratada como pauta secundária, mas como questão prioritária de política pública, exigindo mobilização de gestores, instituições e autoridades sanitárias.
Satisfação baixa com o trabalho nas UTIs
O estudo também revela que 46,4% dos médicos que atuam em UTIs relatam baixo grau de satisfação com suas atividades. Quando se somam aqueles que declararam satisfação moderada, chega-se a 84,5% da força de trabalho indicando não estar plenamente satisfeita com o exercício da medicina em ambientes intensivos.
Segundo os autores, esse quadro reforça o risco de:
- abandono de carreira ou migração para outras áreas;
- queda na qualidade assistencial;
- aumento de erros e conflitos nas equipes.
Despersonalização e impacto na humanização do cuidado
O levantamento também identificou sinais importantes de despersonalização, um dos componentes do burnout. Entre os intensivistas:
- 45,6% afirmam apresentar algum grau de despersonalização;
- 29,6% relataram nível moderado;
- 16% reportaram níveis elevados.
O fenômeno é descrito como:
- distanciamento emocional em relação a pacientes e colegas;
- adoção de atitudes frias, apáticas ou cínicas no ambiente de trabalho.
Para a Amib, esse comportamento:
“prejudica o ambiente assistencial, compromete a qualidade do atendimento, afeta a dinâmica de comunicação nas equipes e se contrapõe à humanização do cuidado”.
Pressão maior na rede pública, avalia CFM
Em coletiva de imprensa, o diretor de Comunicação do CFM, Estevam Rivello, chamou a atenção para as diferenças entre a atuação na rede privada e no sistema público:
“No sistema suplementar, o profissional tem uma estrutura, um arsenal terapêutico que ele pode implementar na assistência ao doente grave com maior facilidade do que quando comparado ao serviço público”, afirmou.
Segundo ele:
“O nível público, com absoluta convicção, registra maior estresse, porque lida com um profissional que não tem a mesma remuneração do serviço suplementar e que tem mais vínculo empregatício em relação ao serviço suplementar”.
Na prática, isso significa:
- maior acúmulo de vínculos e plantões;
- mais limitações de recursos;
- exposição a cobranças intensas de pacientes, famílias e gestores.
Especialização protege parcialmente contra o desgaste
Os dados mostram ainda que o grau de especialização influencia diretamente os níveis de esgotamento e satisfação:
quanto maior a especialização em medicina intensiva,
- menor o nível de esgotamento mental;
- menor a referência a comportamentos de distanciamento afetivo;
- maior o grau de realização pessoal com a profissão.
quanto menor a especialização (por exemplo, médicos generalistas atuando em UTI),
- maiores os níveis de esgotamento e distanciamento;
- menor a satisfação com o próprio desempenho.
Entre médicos intensivistas (especialistas):
- 44,5% relataram alto nível de esgotamento emocional;
- 12,7% indicaram alto grau de despersonalização;
- 39,8% apontaram baixo nível de satisfação com o desempenho.
Entre médicos generalistas que atuam em UTIs, os índices são mais graves:
- 52,3% com alto esgotamento emocional;
- 20,1% com alto grau de despersonalização;
- 50,7% com baixa satisfação com o próprio desempenho.
Os números sugerem que investir em formação específica em terapia intensiva, além de melhores condições de trabalho, pode ajudar a reduzir o desgaste e melhorar a qualidade do cuidado prestado aos pacientes críticos.
TAGS: SAÚDE MENTAL, SÍNDROME DE BURNOUT, MÉDICOS INTENSIVISTAS, UTIS, AMIB, CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA, ESGOTAMENTO PROFISSIONAL, DESPERSONALIZAÇÃO, REDE PÚBLICA DE SAÚDE, QUALIDADE ASSISTENCIAL, BRASIL
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