Nova onda de ofensivas contra instalações de petróleo pressiona produção, reduz oferta de combustíveis e eleva preços; volume de gasolina ne...
Nova onda de ofensivas contra instalações de petróleo pressiona produção, reduz oferta de combustíveis e eleva preços; volume de gasolina negociado chegou a cair cerca de 55% em relação a 2025
Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil
A Rússia enfrenta uma nova crise no abastecimento de gasolina após sucessivos ataques contra refinarias do país, com filas em postos, redução da disponibilidade de combustível e aumento dos preços em diferentes regiões. O problema, que havia apresentado sinais de melhora no fim de julho, voltou a se intensificar em agosto e alcançou inclusive Moscou e sua região metropolitana, enquanto o governo busca compensar parte da queda da oferta com restrições às exportações e importações de outros países.

Escassez de combustível em Kaliningrado, na Rússia, em julho de 2026 (Fotos: WikiCommons)
Apenas uma parcela dos postos tinha gasolina sem filas
Dados reunidos a partir de relatos de motoristas indicam a dimensão da segunda onda de escassez.
Entre 11 e 13 de agosto, apenas 25% a 33% dos postos analisados tinham gasolina disponível sem formação de filas. Quando incluídos estabelecimentos onde ainda havia combustível, mas os consumidores precisavam esperar, o percentual variava entre 46% e 48%.
O levantamento foi elaborado a partir de quase 500 mil registros de usuários e cruzado com outras informações, incluindo movimentações financeiras, dados do mercado de combustíveis e registros de ataques contra instalações russas.
Os números mostram que, embora a Rússia continue produzindo grandes volumes de petróleo, ataques e interrupções na capacidade de refino podem criar gargalos importantes no abastecimento interno.
Ataques contra refinarias pressionam abastecimento russo
A primeira fase da crise foi registrada em julho, após ofensivas contra instalações responsáveis pelo processamento de petróleo.
Naquele período, entre 8 e 11 de julho, somente 17% a 29% dos postos monitorados apresentavam gasolina disponível sem filas. Incluindo estabelecimentos onde o combustível ainda podia ser comprado após espera, o percentual chegava a variar entre 56% e 64%.
A situação começou a se normalizar em meados do mês, à medida que refinarias retomaram operações e autoridades adotaram medidas para reforçar o mercado doméstico.
A recuperação, porém, durou pouco.
Entre 25 de julho e 20 de agosto, drones ucranianos atingiram refinarias russas em pelo menos 15 ocasiões, segundo os dados analisados.
Instalações em regiões como Tyumen, Ryazan, Perm, Volgogrado, Ufa, Syzran, Yaroslavl, Nizhnekamsk, Orsk e Salavat estiveram entre os alvos registrados.
Moscou passa a sentir efeitos da falta de gasolina
Uma das diferenças mais significativas da segunda onda está no impacto sobre Moscou.
A capital russa havia atravessado a primeira fase da crise em situação relativamente mais confortável. Isso mudou em agosto.
No fim de julho, cerca de 75% dos postos monitorados em Moscou apresentavam gasolina sem filas. Em meados de agosto, a proporção havia despencado para aproximadamente 30%.
Quando considerados também os estabelecimentos com filas, a disponibilidade passou de 85% para 49%.
O cenário foi semelhante na região metropolitana da capital. O percentual de postos com combustível e sem filas caiu de 72% para 25%. Incluindo estabelecimentos com espera, o indicador recuou de 78% para 44%.
São Petersburgo apresenta situação diferente
A escassez, entretanto, não ocorre com a mesma intensidade em todo o território russo.
São Petersburgo apresentou cenário significativamente mais favorável durante o período analisado.
Entre 21 e 23 de agosto, aproximadamente 81% dos postos pesquisados tinham gasolina disponível sem filas. Quando incluídos os locais onde havia espera para abastecer, a proporção alcançava 86%.
A diferença regional mostra que a crise depende não apenas da produção nacional, mas também da localização das refinarias, capacidade logística, estoques disponíveis e funcionamento das redes de distribuição.
Volume de gasolina negociado cai cerca de 55%
Outro indicador da pressão sobre o mercado aparece nos volumes comercializados.
Em junho de 2026, aproximadamente 29 mil toneladas de gasolina por dia útil foram negociadas na bolsa, contra cerca de 42 mil toneladas no mesmo período de 2025.
Em julho, a quantidade caiu para aproximadamente 20 mil toneladas diárias, ante 41 mil toneladas um ano antes.
A retração ficou ainda mais evidente em agosto. Entre os dias 1º e 20, foram negociadas cerca de 18 mil toneladas por dia, enquanto no mesmo mês de 2025 a média estava próxima de 40 mil toneladas.
A diferença corresponde a uma redução aproximada de 55%.
Quando gasolina e diesel são considerados conjuntamente, o volume negociado em agosto ficou 34% abaixo do observado no mesmo período do ano anterior.
Preços da gasolina avançam em meio à redução da oferta
A menor disponibilidade também chegou ao bolso dos consumidores.
Entre 29 de junho e 20 de julho, o preço médio da gasolina de 92 octanas avançou de 69 para 73,5 rublos por litro. No combustível de 95 octanas, o valor passou de 74 para 79 rublos.
Algumas regiões apresentaram aumentos muito superiores à média.
Na Crimeia, território ucraniano ocupado e anexado pela Rússia — anexação não reconhecida pela maior parte da comunidade internacional —, os valores informados para o período subiram de 154 para 222 rublos por litro.
Em Sebastopol, os preços passaram de aproximadamente 133 para 211 rublos.
Rússia recorre a importações para reforçar mercado doméstico
Diante das dificuldades no refino e na distribuição, Moscou passou a buscar combustível no exterior para complementar a oferta interna.
Pelo menos 60 mil toneladas de gasolina teriam sido enviadas da Índia para a Rússia, enquanto Belarus aparece entre outros fornecedores considerados para reforçar o abastecimento.
As autoridades russas também alteraram regras do mercado interno. Em julho, a parcela mínima da produção de gasolina que as empresas deveriam disponibilizar para negociação em bolsa foi reduzida de 15% para 10%.
As medidas mostram a tentativa do governo de administrar um problema que ganhou dimensão estratégica diante da continuidade da guerra contra a Ucrânia.
Combustíveis se tornam ponto sensível da guerra
Os ataques às refinarias têm importância que vai além dos danos físicos às instalações.
A Rússia está entre os maiores produtores de petróleo do planeta, mas o petróleo bruto precisa passar por processos industriais para ser convertido em gasolina, diesel e outros derivados utilizados por consumidores, empresas e pelo setor de transportes.
Quando refinarias são danificadas ou precisam interromper suas atividades, a capacidade de transformar petróleo em combustível pode diminuir mesmo que a extração continue.
É justamente essa infraestrutura que tem sido alvo recorrente de ataques ucranianos, numa estratégia destinada a pressionar a capacidade energética e econômica russa.
Abastecimento melhora, mas próximos meses ainda preocupam
Os dados mais recentes do período analisado indicaram alguma recuperação.
Em 23 de agosto, entre 38% e 46% dos postos pesquisados apresentavam gasolina disponível sem filas. Quando considerados também os estabelecimentos com espera, o percentual avançava para algo entre 63% e 75%.
A recuperação, entretanto, dependerá da velocidade dos reparos nas refinarias, da capacidade de distribuição de combustíveis pelo extenso território russo e da ocorrência de novos ataques.
Há ainda outro fator de pressão: paradas programadas para manutenção de grandes refinarias na Rússia e em Belarus nos próximos meses.
Caso essas interrupções coincidam com novos ataques e com períodos de maior demanda sazonal, o mercado russo de combustíveis poderá continuar sob pressão, transformando a disponibilidade de gasolina em mais uma frente econômica relevante no prolongado conflito entre Rússia e Ucrânia.
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