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Colapso de geleira no Himalaia deixa centenas de mortos e acende alerta para novos desastres

Tragédia na fronteira entre Nepal e Tibete foi desencadeada por avalanche de gelo e rochas; novos lagos formados após o desastre mantêm auto...

Tragédia na fronteira entre Nepal e Tibete foi desencadeada por avalanche de gelo e rochas; novos lagos formados após o desastre mantêm autoridades em alerta para o risco de outras inundações

Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil

Um colapso glacial no Himalaia desencadeou uma avalanche de gelo, rochas e detritos que percorreu dezenas de quilômetros e provocou inundações devastadoras entre Nepal e Tibete, na China, na quarta-feira (26). O número de vítimas continuou aumentando nesta sexta-feira (28), enquanto cientistas analisam o rompimento ocorrido nas proximidades do Langtang Lirung e autoridades monitoram novos lagos formados após o desastre, diante do risco de outras enchentes repentinas.


Monte Langtang Lirung (Foto: WikiCommons)

Número de mortos continua aumentando

A dimensão da tragédia ainda está sendo atualizada à medida que as equipes conseguem alcançar regiões isoladas.

Dados divulgados pelo governo do Nepal nesta sexta-feira apontavam 538 corpos recuperados somente nas áreas nepalesas atingidas, além de centenas de moradores e turistas ainda desaparecidos. Informações posteriores reunidas pelas equipes de resgate indicavam que o número total de vítimas na região do desastre já era ainda maior.

A rápida mudança dos números evidencia a dificuldade das operações em uma região montanhosa onde estradas e pontes foram destruídas.

Mais de 90 mil pessoas foram afetadas e equipes de emergência continuam atuando em comunidades isoladas. 

Avalanche de gelo e rochas desencadeou catástrofe

As primeiras análises científicas apontam para um evento de enormes proporções.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o desastre provavelmente começou com um colapso glacial no Parque Nacional de Langtang, próximo à fronteira entre Nepal e China.

A massa de detritos e a inundação subsequente percorreram aproximadamente 100 quilômetros, atingindo áreas povoadas ao longo dos rios Trishuli e Bhote Koshi e chegando à região fronteiriça de Gyirong, no Tibete. (USGS)

Análises posteriores de imagens de satélite indicam que parte da rocha sob uma geleira na região de Langtang Lirung também teria desabado, aumentando drasticamente o volume e a força da avalanche. (India Today)

Fluxo destrutivo atingiu velocidade impressionante

A combinação de gelo, rochas, lama e água transformou o vale em um corredor de destruição.

Análises preliminares apontam que o fluxo de detritos chegou a atingir cerca de 50 metros por segundo, equivalente a aproximadamente 180 km/h em determinados momentos, antes de avançar por mais de 20 quilômetros e alimentar a inundação que prosseguiu pelos sistemas fluviais. (Reuters)

Casas, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e outras estruturas foram atingidas ou destruídas.

A força das águas também modificou trechos dos canais dos rios a dezenas de quilômetros do ponto inicial do colapso.

Novos lagos aumentam temor de outra inundação

O desastre inicial não encerrou o perigo.

Após a avalanche, dois novos lagos foram identificados na região afetada. Um deles se formou atrás de depósitos deixados pela massa de gelo e rochas, criando uma espécie de barreira natural.

Outro foi observado próximo à área do colapso glacial em altitude mais elevada.

O monitoramento dessas formações tornou-se prioridade porque um eventual rompimento repentino pode liberar grandes volumes de água e provocar outra onda de inundação nos vales abaixo. (Stimson Center)

Por enquanto, não é possível determinar se haverá um novo rompimento nem qual seria sua intensidade.

Geleiras do Himalaia entram no centro das preocupações

O episódio volta a chamar atenção para a vulnerabilidade das regiões montanhosas diante das mudanças nas condições das geleiras.

Temperaturas mais elevadas podem acelerar o derretimento do gelo e alterar a estabilidade das encostas. Outro elemento importante é o permafrost, solo permanentemente congelado que funciona como uma espécie de estrutura de sustentação em determinadas áreas de alta montanha.

Quando esse material aquece e perde estabilidade, rochas que permaneceram congeladas durante longos períodos podem se tornar mais suscetíveis a deslizamentos.

Os cientistas, entretanto, ainda investigam a contribuição específica das mudanças climáticas para o colapso ocorrido nesta semana. A relação entre aquecimento, geleiras e instabilidade das encostas envolve diversos fatores geológicos e meteorológicos.

Tragédia de 2021 já havia mostrado dimensão do risco

O Himalaia possui um histórico recente de eventos semelhantes.

Em fevereiro de 2021, uma enorme massa de rocha e gelo se desprendeu de uma montanha no estado de Uttarakhand, na Índia, provocando uma avalanche e uma inundação devastadora no vale de Rishi Ganga.

Mais de 200 pessoas morreram ou desapareceram naquele episódio.

Eventos desse tipo são particularmente perigosos porque podem ocorrer rapidamente e desencadear uma sequência de fenômenos: primeiro o desprendimento de rocha ou gelo, depois uma avalanche e, finalmente, uma inundação carregada de detritos.

Prever qual geleira poderá colapsar ainda é um desafio

Um dos maiores problemas enfrentados pelos cientistas é identificar antecipadamente quais encostas e geleiras estão próximas de um ponto crítico.

Imagens de satélite, sensores terrestres, drones, estações meteorológicas e sistemas de monitoramento sísmico podem ajudar a detectar alterações.

Mesmo com essas tecnologias, prever exatamente quando uma enorme massa de gelo e rocha irá se desprender continua sendo extremamente difícil.

Por isso, sistemas de alerta instalados nos vales são considerados essenciais. Embora nem sempre consigam prever o evento inicial, sensores podem identificar rapidamente alterações no nível dos rios ou grandes movimentos de massa e emitir avisos para comunidades localizadas mais abaixo.

Grandes obras no Himalaia também entram no debate

A tragédia ocorre enquanto grandes projetos de infraestrutura avançam em diferentes partes da cordilheira.

Um dos empreendimentos que desperta atenção internacional é a megausina hidrelétrica planejada pela China no rio Yarlung Tsangpo, que posteriormente atravessa a Índia, onde é chamado de Brahmaputra.

Projetos dessa dimensão em áreas montanhosas precisam considerar riscos sísmicos, deslizamentos, avalanches, enchentes repentinas e alterações provocadas pelas geleiras.

Pequim sustenta que seus empreendimentos seguem critérios ambientais e rejeita preocupações de que o projeto possa prejudicar o abastecimento das regiões localizadas rio abaixo.

Himalaia enfrenta ameaça que ultrapassa fronteiras

A catástrofe desta semana mostra ainda que desastres naturais no Himalaia não respeitam limites políticos.

Uma avalanche iniciada em uma montanha pode afetar rios que atravessam diferentes territórios e colocar populações de vários países em risco.

No caso atual, o colapso atingiu tanto o Nepal quanto o Tibete, exigindo operações de emergência dos dois lados da fronteira.

Enquanto prosseguem as buscas por desaparecidos, cientistas tentam compreender exatamente como a geleira e a encosta entraram em colapso. O conhecimento adquirido poderá ser fundamental para mapear outras áreas vulneráveis e aprimorar sistemas de alerta em uma das regiões montanhosas mais populosas e sensíveis do planeta.

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