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Um ano após restrição a celulares, escolas públicas do DF registram avanço no aprendizado e na convivência

Lei 15.100/2025 já faz parte da rotina escolar e é apontada por alunos, famílias e gestores como aliada do foco, da socialização e do rendim...

Lei 15.100/2025 já faz parte da rotina escolar e é apontada por alunos, famílias e gestores como aliada do foco, da socialização e do rendimento

Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil

Pouco mais de um ano depois da entrada em vigor da Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas públicas do Distrito Federal, gestores, professores, estudantes e famílias relatam mudanças significativas no cotidiano escolar. A norma, inicialmente cercada de resistência, hoje está incorporada à rotina de diversas unidades e é associada à melhora do rendimento, ao aumento da interação entre alunos e a mais organização na vida dentro e fora da escola.

Pouco mais de um ano após a entrada em vigor da lei que restringe o uso de celulares nas escolas públicas do DF, a implementação se mostra integrada à rotina escolar de diversas unidades | Foto: Tony Oliveira / Agência Brasília

Lei do celular já faz parte da rotina escolar

A legislação determinou a restrição ao uso de celulares nas escolas públicas do DF, permitindo o porte do aparelho apenas em casos específicos e com autorização da direção ou coordenação. Na prática, a implementação exigiu ajustes pedagógicos, diálogo com a comunidade escolar e construção de novas estratégias de engajamento.

Um dos exemplos é o Centro Educacional Incra 8 (CED Incra 8), localizado na zona rural, que atende pouco mais de mil estudantes, do 6º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio, com alunos entre 11 e 17 anos. A escola reorganizou sua rotina para cumprir a norma, mantendo projetos pedagógicos já existentes e criando novas atividades para ocupar o espaço antes dominado pelas telas.

A secretária interina de Educação, Iêdes Soares Braga, resume a avaliação da pasta:
“As escolas se adaptaram à norma, superaram os desafios iniciais e já observamos melhorias no ambiente de aprendizagem, com mais foco e participação dos estudantes.”

Menos tela, mais presença: relatos de alunos e famílias

Entre os estudantes, a percepção de mudança é clara. A aluna Camila Ambra Aires dos Santos, 17 anos, conta que, após a resistência inicial, percebeu o impacto da medida no próprio desempenho:

“Eu cheguei a pensar o que seria de mim sem meu celular. Mas, na prática, foi bom porque aumentou meu rendimento na escola, e em casa eu nem uso tanto o celular quanto antes. Sentir de verdade a presença das pessoas, ver que tem tantas ao meu redor, é de questionar por que ficar tanto tempo no celular. Isso acaba furando a bolha da gente”, relata.

A estudante Maria Fernanda de Souza Costa, 14 anos, destaca o ganho na aprendizagem:
“Melhorou, porque às vezes a gente pegava respostas na internet e conversava com os colegas mais pelas redes sociais. Depois disso, eu consegui me concentrar muito melhor e agora sou eu que desenvolvo as respostas. Melhorou o raciocínio.”

Para Alex Yudi Togashi, 15 anos, o maior impacto foi na convivência: antes tímido e mais isolado, ele diz que o fim do celular no intervalo abriu espaço para novas amizades.
“Comecei a interagir mais e fiz muitos amigos novos”, conta.

As famílias confirmam a mudança. A servidora pública Patrícia de Sousa Rodrigues, mãe de Maria Fernanda, diz que houve melhora no comportamento e no desempenho da filha, com reflexos em casa:
“Ela consegue interagir mais com os colegas, fez mais amizades e o rendimento melhorou. Em casa, a gente também colocou mais limites, seguindo as restrições da escola, e ela se adaptou bem.”

A vendedora autônoma Weslla Santana, mãe de Alex, também percebeu transformação na socialização do filho:
“Ele sempre foi muito sozinho, mais na dele. Hoje, tem mais amigos. Ele sempre foi bem na escola, mas acho que o celular tira muito o foco de tudo. Agora, ele melhorou bastante.”

Escola reorganizada: mais interação, leitura e jogos

No CED Incra 8, o primeiro momento foi de resistência, principalmente entre adolescentes acostumados a passar o recreio conectados. A direção, porém, apostou em ações pedagógicas, escuta e firmeza na aplicação da lei.

Foram criados:

  • Espaços e momentos de leitura
  • Atividades que estimulam a interação presencial, como jogos de tabuleiro e brincadeiras manuais
  • Dinâmicas em grupo para fortalecer vínculos entre os alunos

Como muitos estudantes percorrem longas distâncias até a escola, a unidade autorizou que levassem o celular para comunicação no trajeto, mas com uso proibido dentro da escola, salvo situações autorizadas.

A diretora do CED Incra 8, Solange da Cunha Pereira, explica que hoje cerca de 80% dos estudantes já se adequaram às regras, que valem para salas, corredores e intervalos, com os aparelhos guardados nas mochilas.

“Os alunos começaram a ter mais interações com outros colegas. Antigamente, eles ficavam de cabeça baixa ali no celular, concentrados em lugares onde a internet pegava melhor, observamos isso. Hoje eles já conseguem conversar melhor com um colega que, muitas vezes, estava ao lado e não percebiam. As amizades aumentaram bastante e a gente percebeu uma melhora significativa nas notas e no rendimento escolar”, relata.

A fiscalização, segundo a diretora, é feita de forma gradual e dialogada. Em casos de descumprimento:

  • Primeiro, a escola conversa e orienta
  • Depois, aplica advertências
  • Em último caso, recolhe o aparelho até a presença dos responsáveis, podendo chegar à suspensão

Professores percebem mais foco e melhor aprendizagem

Do ponto de vista pedagógico, professores relatam mudanças dentro da sala de aula e na rotina fora da escola. O professor de matemática Germano Pereira dos Santos Filho, que também é pai de estudantes em Brazlândia, afirma que a lei provocou um salto na qualidade do ensino:

“Após a implantação da lei, percebi que houve uma melhora na qualidade da prática educativa até em casa também, além da melhoria no rendimento dos alunos com relação aos conteúdos. Antes o celular atrapalhava muito, agora eles estão nitidamente mais focados”, observa.

Segundo docentes, a redução das distrações ajuda a:

  • Aumentar a atenção às explicações e atividades
  • Diminuir interrupções por notificações e mensagens
  • Fortalecer a participação nas aulas e o diálogo presencial
  • Estimular a autonomia intelectual, já que os alunos recorrem menos a respostas prontas na internet

Impactos para além da escola: limites e hábitos em casa

Os efeitos da lei têm extrapolado os muros escolares. Inspiradas pelas regras da escola, muitas famílias passaram a estabelecer limites mais claros para o uso de celulares em casa, especialmente em horários de estudo e convivência familiar.

Esse movimento contribui para:

  • Reduzir o tempo excessivo de tela
  • Melhorar o sono e a organização da rotina
  • Incentivar outras formas de lazer e interação
  • Reforçar o valor da escola como espaço de presença e convivência real

Ao completar um ano, a Lei nº 15.100/2025 mostra que, combinada com diálogo, ações pedagógicas e apoio das famílias, a restrição ao uso de celulares pode se transformar em instrumento de qualificação da aprendizagem, fortalecimento de vínculos e bem-estar dos estudantes da rede pública do Distrito Federal.


TAGS: CELULAR NAS ESCOLAS, LEI 15.100/2025, REDE PÚBLICA DO DF, DISTRITO FEDERAL, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO, IÊDES SOARES BRAGA, CED INCRA 8, RENDIMENTO ESCOLAR, CONVIVÊNCIA ESCOLAR, USO DE TECNOLOGIA, EDUCAÇÃO BÁSICA, ADOLESCENTES, FAMÍLIA E ESCOLA, DISCIPLINA EM SALA DE AULA, INCLUSÃO SOCIAL, ZONA RURAL DO DF

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