Ofensiva de EUA e Israel fecha passagens, paralisa ajuda e ameaça reconstrução do território palestino, que já tinha 1,5 milhão de pessoas e...
Ofensiva de EUA e Israel fecha passagens, paralisa ajuda e ameaça reconstrução do território palestino, que já tinha 1,5 milhão de pessoas em insegurança alimentar
Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil
Um breve período de alívio humanitário na Faixa de Gaza foi interrompido pela ofensiva militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro. A nova fase da guerra no Oriente Médio levou ao fechamento de passagens de fronteira, ao bloqueio da entrada de caminhões de ajuda e à suspensão da saída de pacientes para tratamento médico, recolocando sob forte pressão cerca de 2 milhões de palestinos que vivem no enclave. As informações são do jornal The Washington Post.
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Antes da ofensiva: sinais tímidos de melhora no dia a dia em Gaza
Nas semanas anteriores aos ataques a Teerã, Gaza dava sinais de uma recuperação ainda frágil, impulsionada por:
- Aumento da entrada de alimentos, reduzindo a escassez extrema;
- Queda nos preços de produtos básicos, como farinha e açúcar, após meses de racionamento;
- Ampliação da distribuição de refeições em campos de deslocados por organizações humanitárias, permitindo que muitas famílias voltassem a fazer ao menos duas pequenas refeições por dia.
O cenário continuava crítico, mas, após anos de destruição, esses avanços eram vistos como uma rara janela de esperança para milhares de famílias.
Reabertura parcial de Rafah trouxe esperança a pacientes graves
Um dos principais símbolos dessa breve melhora foi a reabertura parcial da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito, no início de fevereiro. Pela primeira vez em dois anos, pacientes palestinos em estado grave puderam deixar Gaza para receber atendimento médico no exterior.
Segundo o Washington Post:
- Mais de 500 palestinos e acompanhantes conseguiram sair do território nas primeiras semanas;
- Uma fila de quase 20 mil pessoas ainda aguardava autorização para deixar Gaza em busca de tratamento.
A retomada, ainda que limitada, era vista como essencial para quem depende de cirurgias complexas, tratamentos oncológicos ou terapias inexistentes no sistema de saúde devastado do enclave.
Ataques a Teerã mudam cenário e fecham fronteiras
Tudo mudou em 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses lançaram ataques contra alvos no Irã, ampliando o conflito regional. Em resposta ao novo contexto, Israel:
- Fechou novamente as passagens que permitiam a entrada de ajuda humanitária;
- Suspendeu a saída de pacientes para tratamento médico;
- Justificou as medidas com base em preocupações de segurança e no risco de ataques com mísseis ligados ao Irã.
O bloqueio teve efeitos imediatos:
- Paralisação do fluxo de caminhões com alimentos, medicamentos e suprimentos básicos;
- Compras em pânico e disparada de preços em Gaza;
- Organizações humanitárias relataram estoques com pouca ou nenhuma reserva no território.
Situação humanitária já era crítica antes da nova escalada
Mesmo antes da ofensiva contra o Irã, Gaza vivia uma das piores crises humanitárias do mundo. De acordo com estimativas das Nações Unidas:
- Mais de 80% das estruturas da Faixa de Gaza foram danificadas ou destruídas por anos de bombardeios;
- A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que mais de 1,5 milhão de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda.
O cessar-fogo em vigor era descrito como instável: a intensidade dos ataques havia diminuído, mas não cessado. Desde o início da trégua, ao menos 648 palestinos foram mortos em novos ataques — número muito inferior às dezenas de milhares de mortos dos períodos mais intensos da guerra, mas ainda assim indicador de um conflito longe de terminar.
Reconstrução ameaçada: bilhões prometidos, futuro incerto
A guerra envolvendo o Irã também ameaça comprometer planos internacionais para a reconstrução de Gaza. Dias antes da ofensiva:
- Um conselho internacional criado para coordenar a reconstrução havia recebido promessas de bilhões de dólares em financiamento;
- Discutia-se o envio de uma força internacional de estabilização para garantir segurança e apoiar a reconstrução civil.
Com a escalada regional, surgem dúvidas sobre:
- A continuidade dos compromissos financeiros assumidos;
- A disposição de países em participar de operações de estabilização;
- A retomada de negociações diplomáticas e de debates sobre o desarmamento do Hamas, agora suspensos devido ao fechamento do espaço aéreo e às restrições de deslocamento.
Alguns governos já sinalizam que podem rever sua participação, à medida que o risco na região aumenta e as prioridades diplomáticas mudam.
Hamas retoma controle administrativo, mas população segue no limite
Enquanto o cenário internacional se complica, o Hamas aproveita a relativa diminuição da intensidade dos bombardeios em algumas áreas para:
- Reconstruir parte de sua estrutura administrativa em regiões sob sua influência;
- Restabelecer serviços civis básicos;
- Reforçar o controle sobre o cotidiano da população, em um contexto de ausência de uma autoridade alternativa plenamente funcional.
Para a maior parte dos moradores de Gaza, porém, o impacto mais imediato é a sensação de que uma rara janela de esperança foi novamente fechada. A perspectiva de:
- Reconstrução física;
- Recuperação econômica mínima;
- Acesso a tratamento médico fora do território;
volta a ficar indefinida diante da ampliação do conflito e da reativação de bloqueios.
Futuro em suspenso para 2 milhões de palestinos
Com fronteiras novamente fechadas, ajuda humanitária bloqueada e o risco de uma guerra mais ampla no Oriente Médio, o futuro de cerca de 2 milhões de habitantes da Faixa de Gaza permanece em suspenso.
A combinação de:
- Crise humanitária crônica;
- Infraestrutura destruída;
- Insegurança alimentar massiva;
- Paralisação de iniciativas de reconstrução;
faz com que qualquer avanço seja percebido como frágil e facilmente reversível — como ficou evidente com a ofensiva contra o Irã e o consequente endurecimento das restrições sobre o território palestino.

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