Rotina de dez horas diárias em Cepis, conveniadas e Cartão Creche garante cinco refeições, estímulo pedagógico e tranquilidade para famílias...
Rotina de dez horas diárias em Cepis, conveniadas e Cartão Creche garante cinco refeições, estímulo pedagógico e tranquilidade para famílias que trabalham
Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil
No Distrito Federal, a educação infantil em tempo integral virou regra: todas as creches da rede pública e parceiras funcionam em jornada de dez horas diárias, com cinco refeições e uma rotina estruturada de cuidados e aprendizagem. Ao todo, 33.352 crianças são atendidas em unidades próprias, instituições conveniadas e escolas particulares credenciadas pelo Cartão Creche, fazendo do DF a única unidade da Federação com 100% das creches em regime integral.
Dez horas de cuidado, brincadeira e aprendizado
No Centro de Educação da Primeira Infância (Cepi) Flor de Magnólia, no Riacho Fundo II, a rotina começa às 7h30. As 188 crianças matriculadas, de 4 meses a 4 anos, chegam, tiram os sapatos e seguem com as “tias” – como chamam as professoras – para o café da manhã no refeitório. O cardápio, elaborado por nutricionistas da rede e informado semanalmente às famílias, inclui opções como mingau, cuscuz, frutas e bolo.
Depois da primeira refeição, começam as atividades pedagógicas. O momento mais esperado é a “rodinha”: todos sentados em círculo, participam de cantigas, musicalização, conversas em grupo e contação de histórias. É ali que surgem as primeiras interações do dia e se consolida a proposta pedagógica das creches do DF, centrada em experiências e não na alfabetização precoce.
As atividades seguem com pintura, colagem, massinha, jogos educativos e exploração dos espaços externos, como parquinhos e áreas livres. Ao longo da manhã, há um lanche leve, geralmente com frutas, e novas atividades lúdicas, com brinquedos de montar, jogos coletivos e brincadeiras no pátio.
Às 11h, é servido o almoço – com arroz, feijão, carnes ou frango, legumes e verduras. Os bebês comem nas salas; os maiores, no refeitório adaptado ao tamanho das crianças. Depois, é hora do descanso, que costuma ir até 13h30.
Na parte da tarde, as crianças tomam banho, organizam a higiene, recebem um novo lanche (frutas, biscoitos ou sanduíches leves) e participam de atividades recreativas, muitas vezes ao ar livre, com rodas de música, jogos e brincadeiras com bola. Por volta das 16h, é servido o jantar. Em seguida, as equipes fazem a higienização, trocam roupas quando necessário e registram na agenda escolar as atividades e observações do dia. A partir das 17h, os portões se abrem para a saída, encerrando uma jornada de cerca de dez horas.
Todas as creches vinculadas à Secretaria de Educação seguem esse padrão: período integral de 10 horas diárias e cinco refeições – café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar.
Foco não é alfabetizar, mas desenvolver
A orientação pedagógica nas creches do DF rompe com a ideia de que a criança deve sair alfabetizada da educação infantil. O foco é o desenvolvimento integral – sensorial, cognitivo, motor e social – por meio de experiências e interações mediadas por atividades lúdicas.
Cores, números e letras aparecem no dia a dia, mas sempre de forma indireta, em propostas adaptadas à idade de cada grupo, com uso de brincadeiras, tintas, papéis, músicas, objetos e histórias. Um mesmo tema pode mobilizar toda a creche, com abordagens diferentes para bebês e crianças maiores, respeitando o ritmo de cada faixa etária.
Segundo a equipe pedagógica, a meta é construir repertório, memórias e bases sólidas para a etapa seguinte da vida escolar, quando começa a alfabetização formal.
Impacto no comportamento e na socialização das crianças
Para muitas famílias, a creche integral tem efeito visível no desenvolvimento dos filhos. A servidora pública Sthephanie Ribeiro, mãe de uma bebê de 11 meses, relata que a adaptação trouxe ganhos rápidos.
“Foi uma decisão difícil no início, porque a gente gostaria de ficar sempre com os filhos. Mas eu percebo que ela já está mais sociável, começou a dar beijinhos e está quase andando. A convivência com outras crianças ajuda muito”, conta.
O empresário Rodrigo Matos, pai de um aluno com diagnóstico de autismo, afirma que o acolhimento da equipe foi decisivo: “No começo, ficamos apreensivos. Mas logo percebemos que ele foi acolhido. Hoje ele pede para vir para a escola. A evolução é visível. Ele está mais tranquilo, mais sociável e a adaptação foi muito positiva. Até o remédio que ele toma está diminuindo por causa da convivência com a escola”.
A diretora do Cepi Flor de Magnólia, Tatiane Maria de Jesus, explica que há acompanhamento contínuo da evolução das crianças. “Existe uma observação diária. Temos um diário de bordo onde são registradas as atividades e o desenvolvimento das crianças. Assim conseguimos acompanhar o progresso e compartilhar essas informações com os pais”, detalha.
DF lidera atendimento integral e amplia rede de Cepis
No Distrito Federal, o atendimento em creche integra a política educacional desde os primeiros anos de vida. A ex-secretária de Educação Hélvia Paranaguá lembra que o caráter educacional da creche foi consolidado pela Constituição de 1988 e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
“Durante muito tempo a creche foi vista apenas como assistencialismo, mas desde a Constituição de 1988 e a LDB ela passou a ser educação. É ali que a criança começa a ser estimulada, conviver com outras crianças e aprender a socializar”, afirma.
Hoje, a rede de atendimento à primeira infância em tempo integral no DF é composta por:
- 73 Centros de Educação da Primeira Infância (Cepis), construídos ou administrados pelo Governo do Distrito Federal;
- 72 instituições parceiras conveniadas;
- 133 unidades particulares atendidas pelo Cartão Creche;
- 2 escolas da rede pública distrital com atendimento em creche.
Ao todo, 33.352 crianças são atendidas em regime de tempo integral, o que coloca o DF como única unidade da Federação com 100% das creches públicas em jornada de dez horas.
Desde 2019, o GDF construiu 27 novos Cepis, dos quais 22 já foram inaugurados, distribuídos por diferentes regiões administrativas. Além das obras, o governo ampliou o número de creches conveniadas e de vagas custeadas pelo Cartão Creche, o que permitiu reverter o cenário de déficit.
Em 2019, a fila de espera somava cerca de 24 mil crianças. Hoje, segundo a gestão, há mais vagas abertas do que crianças aguardando por atendimento.
Educação, proteção e impacto social para as famílias
Para Hélvia Paranaguá, o modelo de creche em tempo integral combina benefícios educacionais, nutricionais e sociais.
“Esse estímulo e esse cuidado são fundamentais nessa fase da vida. A criança fica bem assistida, aprende, evolui e a família pode trabalhar com tranquilidade”, afirma. Ela destaca ainda o impacto direto na segurança alimentar: “Na creche em tempo integral, a criança tem cinco refeições. Ela aprende mais, está mais protegida e vai para casa bem alimentada”.
Ao garantir vagas integrais em diferentes regiões e formatos – Cepis, conveniadas e Cartão Creche –, o DF busca conciliar a promoção do desenvolvimento infantil com o apoio às famílias trabalhadoras, sobretudo as de baixa renda, que dependem da creche para conciliar emprego e cuidado com os filhos.
TAGS: CRECHES DF, TEMPO INTEGRAL, PRIMEIRA INFÂNCIA, CEPI, CARTÃO CRECHE, EDUCAÇÃO INFANTIL, GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL, RIACHO FUNDO II, DESENVOLVIMENTO INFANTIL, HÉLVIA PARANAGUÁ, JORNADA INTEGRAL, ALIMENTAÇÃO ESCOLAR
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