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Iniciativa da Polícia Militar oferece visitas solidárias, monitoramento de medidas protetivas, apoio psicológico e articulação com a rede de proteção para evitar reincidências e feminicídios
Um trabalho silencioso e contínuo da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) vem mudando a realidade de milhares de mulheres vítimas de violência doméstica. O Programa de Prevenção Orientado à Violência Doméstica e Familiar (Provid) atua em casos considerados graves, oferecendo acompanhamento especializado, visitas solidárias, monitoramento de medidas protetivas, ações educativas e integração com toda a rede de proteção. Desde 2019, cerca de 115 mil mulheres já foram atendidas, e o reforço estrutural em 2025 — com 27 novas viaturas e ampliação de equipes — busca reduzir reincidências e feminicídios em todas as regiões administrativas do DF.
De 20 anos de medo à rede de proteção: a virada na vida de uma vítima
A história da babá Rosineide da Costa Almeida, 37 anos, ilustra o impacto do Provid. Por mais de duas décadas, ela conviveu com agressões físicas e psicológicas dentro de casa, praticadas pelo ex-marido. O ciclo de violência só começou a ser rompido em 31 de janeiro de 2023, no dia em que completou 35 anos, ao registrar a primeira ocorrência policial.
A partir desse registro, Rosineide foi encaminhada ao Provid e passou a ser acompanhada por equipes especializadas da PMDF. Ela recebeu o Dispositivo de Acionamento de Emergência Viva Flor — um equipamento que permite chamar ajuda policial rapidamente — e passou a receber visitas frequentes dos policiais.
Segundo ela, a percepção sobre a atuação da polícia mudou completamente: o som da viatura, que antes causava medo, passou a significar segurança. Com medida protetiva expedida pela Justiça, atendimento psicológico, suporte social e monitoramento constante, Rosineide rompeu o vínculo com o agressor e reconstruiu sua rotina com mais autonomia.
“Hoje, me sinto protegida, como se estivesse dentro de uma bolha de segurança”, relata. Ela destaca que muitas mulheres ainda desconhecem a existência de recursos como o Provid e o Viva Flor: “Muitas morrem porque não sabem que existe tanta ajuda. Não é só um papel. Funciona. Salvou a minha vida”.
O episódio que desencadeou a denúncia foi uma perseguição automobilística. Inconformado com o fim do relacionamento, o ex-marido tentou agredi-la em casa e, depois, a seguiu de carro até o restaurante onde ela comemoraria o aniversário em Taguatinga, jogando o veículo contra o dela para tirá-la da pista. A situação só teve fim com a intervenção policial.
Provid: política pública focada em prevenção e atendimento humanizado
Criado como uma das principais políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica no DF, o Provid é um serviço especializado da PMDF voltado a mulheres em situação de violência grave e alto risco, com atenção especial à prevenção de reincidências e à redução de feminicídios.
O programa executa:
- Visitas solidárias a vítimas e suas famílias;
- Acompanhamento e monitoramento de medidas protetivas de urgência;
- Ações educativas em comunidades e instituições;
- Triagem e avaliação de risco;
- Articulação com órgãos do Judiciário, assistência social, Saúde e estruturas de defesa dos direitos da mulher.
Em 2024, o programa registrou:
- 25.565 visitas solidárias;
- 391 ações de prevenção e articulação com a rede de proteção;
- 2.095 triagens;
- 1.832 visitas de acompanhamento mais aprofundado;
- 1.164 famílias acompanhadas de forma contínua;
- 883 medidas protetivas monitoradas diretamente pela PMDF.
O Provid está presente em 22 batalhões da PMDF e atende todas as regiões administrativas, com suporte presencial e também por meio de canais digitais, como WhatsApp.
Atuação multidisciplinar e plano de segurança para cada mulher
De acordo com a tenente-coronel Renata Cardoso, coordenadora-geral do Provid, o diferencial do programa é o atendimento humanizado e individualizado. Os policiais que atuam na iniciativa recebem capacitação específica para lidar com situações de violência doméstica, avaliar riscos e construir, junto com cada mulher, um plano de segurança próprio.
“É um policiamento especializado, feito por policiais capacitados, que avaliam o risco de cada caso e constroem, junto com a mulher, um plano de segurança”, explica. “O objetivo é proteger, orientar e ajudar essa mulher a retomar sua autonomia”.
Durante as visitas, as equipes discutem rotinas e vulnerabilidades, oferecendo orientações práticas, como:
- Ajustes em horários e trajetos diários;
- Cuidados com portões, fechaduras e acessos à residência;
- Definição de rotas alternativas para fugir de situações de risco;
- Criação de sinais combinados com familiares e vizinhos para pedidos discretos de ajuda;
- Estratégias para reagir e buscar proteção em situações de emergência.
Em 2025, 32 policiais militares concluíram a formação específica para atuar no Provid, reforçando o quadro de profissionais preparados para esse tipo de atendimento.
Medidas protetivas ágeis e tecnologia a favor da proteção
Um ponto considerado estratégico pela coordenação do Provid é a rapidez na expedição de medidas protetivas de urgência no DF. Segundo a tenente-coronel Renata Cardoso, em muitos casos o despacho judicial sai em poucas horas após o registro da ocorrência.
Além disso, o DF oferece recursos complementares, como:
- Dispositivo Viva Flor, que permite acionamento rápido da PM em caso de ameaça;
- Acompanhamento direto do Provid, mesmo quando não há determinação judicial específica para o programa;
- Monitoramento eletrônico de agressores em algumas situações, por meio da Diretoria de Monitoramento de Pessoas Protegidas (DMPP).
“O Viva Flor e o acompanhamento especializado do Provid são ferramentas que salvam vidas”, reforça Renata. A integração com o Copom Mulher, criado em 2024 para atendimento prioritário a casos de violência doméstica, e com a DMPP ampliou a capacidade de resposta da segurança pública em situações de risco iminente.
Expansão com novas viaturas e cobertura em todo o DF
Em dezembro de 2025, o Provid recebeu 27 novas viaturas, distribuídas entre as 22 unidades operacionais da PMDF, incluindo o Batalhão Rural. O reforço da frota permitiu aumentar o número de visitas, ampliar a cobertura territorial e reduzir o tempo de resposta às demandas.
“Esses investimentos permitem mais visitas, mais proximidade e mais efetividade no atendimento”, avalia a tenente-coronel. “O Provid não é apenas número, é transformação de vidas”.
Com a estrutura reforçada, o programa consegue acompanhar de forma mais contínua as mulheres em situação de risco extremo, oferecer suporte em áreas mais afastadas e intensificar ações educativas em comunidades vulneráveis.
Como acessar o Provid e acionar a rede de proteção
O principal caminho para ingresso no Provid é o registro de ocorrência policial por violência doméstica, que pode ser feito em delegacias ou canais oficiais da Polícia Civil. A partir daí, o caso se transforma em inquérito e, posteriormente, em processo judicial.
O juiz analisa o nível de risco e, nos casos considerados graves ou com potencial extremo de feminicídio, a mulher pode ser encaminhada diretamente para acompanhamento pelo Provid. Em algumas situações, o encaminhamento também pode ocorrer por demanda da própria rede de proteção ou por solicitação da vítima, a partir de avaliação técnica.
De forma geral, o fluxo envolve:
- Registro da ocorrência;
- Pedido e análise de medida protetiva;
- Encaminhamento ao Provid em casos de alto risco;
- Elaboração de plano de segurança;
- Visitas periódicas, monitoramento e articulação com serviços de saúde, assistência social e Justiça.
A orientação da PMDF e de especialistas é que qualquer mulher que esteja sendo vítima de ameaça, agressão física, psicológica, patrimonial, sexual ou moral busque ajuda o quanto antes, não apenas em situações de risco extremo. O registro formal é a porta de entrada para uma rede de suporte que inclui o Provid, delegacias, Defensoria, Ministério Público, serviços sociais e de saúde.
Ao combinar presença policial especializada, uso de tecnologia, resposta rápida da Justiça e articulação com diferentes órgãos, o Provid se consolida como uma política pública central no enfrentamento à violência doméstica no Distrito Federal, devolvendo às mulheres a possibilidade real de retomar a própria vida com dignidade, segurança e autonomia.

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