Conselho Universitário decide por unanimidade retirar honraria concedida a Lincoln Gordon em 1968, em razão de seu papel na articulação da d...
Conselho Universitário decide por unanimidade retirar honraria concedida a Lincoln Gordon em 1968, em razão de seu papel na articulação da ditadura militar no Brasil
Por Matheus Salomão - Redação Tribuna do Brasil
© Reprodução
O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aprovou, nesta quinta-feira (13), a revogação do título de Doutor Honoris Causa concedido em 1968 ao diplomata norte-americano Lincoln Gordon. A decisão, tomada por unanimidade, revisita o papel do ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil na conjuntura que levou ao golpe de Estado de 1964 e à instalação da ditadura militar, que se estendeu até 1985.
Embaixador no período pré-golpe e elo com Washington
Lincoln Gordon foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966, período marcado por forte tensão política e polarização ideológica. Documentos históricos e pesquisas posteriores apontam que o diplomata:
- participou do planejamento e articulação política que antecederam o golpe de 1º de abril de 1964;
- atuou como elo entre Washington e setores das Forças Armadas brasileiras, que defendiam a derrubada do presidente João Goulart.
A vitória do movimento golpista levou à deposição de Goulart e à instalação de um regime autoritário que durou 20 anos, com suspensão de direitos políticos, censura, perseguição a opositores e violações sistemáticas de direitos humanos.
Documentos de Lyndon B. Johnson e a Operação Brother Sam
A dimensão da participação norte-americana no episódio ficou mais clara com a abertura de arquivos do governo dos Estados Unidos, na gestão do presidente Lyndon B. Johnson (1908-1973), que estava no poder à época do golpe.
Os registros revelam que:
- uma ordem sigilosa dos chefes do Estado-Maior Conjunto norte-americano deu início ao maior deslocamento de unidades de combate já realizado no Atlântico Sul até então;
- a operação foi batizada de “Brother Sam”, e tinha como objetivo enviar uma força-tarefa naval ao litoral brasileiro em apoio ao levante dos quartéis que derrubou João Goulart.
A Operação Brother Sam previa:
- apoio logístico e militar às forças golpistas;
- atuação de navios e equipamentos de combate norte-americanos em eventual agravamento do conflito interno brasileiro.
Com a rápida vitória dos golpistas, a força-tarefa não chegou a atuar em águas territoriais brasileiras, mas o deslocamento em si evidenciou o grau de envolvimento dos Estados Unidos na conjuntura que levou à ruptura democrática.
Revisão histórica e reposicionamento institucional
Ao revogar o título de Doutor Honoris Causa de Lincoln Gordon, a UFRJ:
- sinaliza um reposicionamento institucional frente a personagens ligados à ruptura democrática de 1964;
- incorpora à sua memória acadêmica as evidências hoje disponíveis sobre a interferência estrangeira e a participação de lideranças civis e militares no golpe;
- reforça a importância da revisão crítica de honrarias concedidas em contexto de autoritarismo ou sob forte influência política.
A decisão se insere em um movimento mais amplo de universidades e instituições brasileiras que, nas últimas décadas, têm revisitado homenagens históricas, nomes de prédios e títulos honoríficos associados a períodos de exceção, em diálogo com a sociedade e com o compromisso de valorização da democracia e dos direitos humanos.
TAGS: UFRJ, DOUTOR HONORIS CAUSA, LINCOLN GORDON, GOLPE DE 1964, DITADURA MILITAR, OPERAÇÃO BROTHER SAM, JOÃO GOULART, ESTADOS UNIDOS, DEMOCRACIA, HISTÓRIA DO BRASIL
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