Observatório de US$ 4 bilhões parte da Flórida em foguete Falcon Heavy e promete o mapa 3D mais amplo já feito do universo, além de ampliar ...
Observatório de US$ 4 bilhões parte da Flórida em foguete Falcon Heavy e promete o mapa 3D mais amplo já feito do universo, além de ampliar a busca por exoplanetas
Por Matheus Salomão - Redação Tribuna do Brasil
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O novo observatório astronômico de ponta da Nasa já está a caminho do espaço profundo. O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, projeto avaliado em cerca de US$ 4 bilhões, foi lançado neste domingo (30) a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a bordo de um foguete Falcon Heavy, da SpaceX, em missão voltada a alguns dos maiores enigmas da astrofísica e da cosmologia.
Mesmo após preocupações iniciais com as condições meteorológicas, o lançamento ocorreu sob céu azul e nuvens esparsas, levando o Roman à rota que o conduzirá ao seu ponto de operação.
Rumo ao ponto de Lagrange 2 em missão de até 10 anos
O telescópio segue agora em direção ao Ponto de Lagrange 2 (L2), a cerca de 1,6 milhão de quilômetros da Terra, posição gravitacionalmente estável também utilizada pelo Telescópio Espacial James Webb.
A missão primária do Roman está planejada para cinco anos, mas a Nasa estima que haja combustível suficiente para operar por até mais cinco anos, caso tudo transcorra dentro do esperado.
Nesse período, o observatório deverá:
- medir com precisão a expansão do universo;
- testar a gravidade em grandes escalas cósmicas;
- investigar a natureza da energia escura e da matéria escura;
- realizar uma das maiores buscas já feitas por exoplanetas, planetas fora do Sistema Solar.
“Abrir a porta” do universo ao lado de Hubble e James Webb
O Nancy Grace Roman foi concebido para complementar e ampliar as capacidades dos principais observatórios espaciais atuais, como o Telescópio Espacial Hubble (lançado em 1990) e o Telescópio Espacial James Webb (lançado em 2021).
A diretora de Missões Científicas da Nasa, Nicola Fox, comparou os três telescópios:
“Será como se o Hubble e o James Webb tivessem espiado o universo pelo buraco da fechadura, enquanto o Nancy Grace Roman vai escancarar a porta”.
Segundo Julie McEnery, cientista sênior do projeto no Centro de Voo Espacial Goddard, o Roman tem sensibilidade e nitidez de visão semelhantes às do Hubble, mas com uma capacidade de mapeamento muito mais rápida:
“Um mês de observações do Roman pode mapear toda a nossa galáxia. Um mês de observações para mapear a Via Láctea levaria cerca de um século com o Hubble”, afirmou McEnery.
Lente grande angular para complementar o “zoom” do James Webb
Enquanto o James Webb se destacou por revelar detalhes da história inicial do universo, detectando galáxias que se formaram antes e eram maiores do que se imaginava, o Nancy Grace Roman foi desenhado para “ver mais, de uma só vez”.
A Nasa compara:
- o Roman a uma lente grande-angular, capaz de captar grandes porções do céu em uma única imagem;
- o Webb a uma lente de zoom, ideal para observar regiões muito específicas e distantes em profundidade.
“O Webb foi projetado para sondar o universo com grande profundidade e sensibilidade excepcional, permitindo-nos encontrar fenômenos raros do universo primordial”, explicou McEnery.
Já o Roman oferece “a visão ampla que complementa as observações profundas proporcionadas pelo Webb”.
Energia escura, matéria escura e o grande mapa 3D do cosmos
Uma das principais missões científicas do Roman é ajudar a decifrar a energia escura e a matéria escura, componentes invisíveis que dominam o conteúdo do universo.
Segundo estimativas atuais:
- matéria comum (estrelas, planetas, gás, poeira e tudo que conhecemos diretamente) responde por cerca de 5% do universo;
- matéria escura, inferida por sua influência gravitacional em galáxias e estrelas, pode representar cerca de 27%;
- energia escura, associada à expansão acelerada do universo, pode chegar a 68%.
O Roman deverá produzir o mapa 3D mais abrangente já feito do universo, com seu principal levantamento cobrindo mais de dois bilhões de galáxias ao longo de mais de um ano de observações.
Ao medir:
- como a matéria escura puxa galáxias entre si;
- como a energia escura impulsiona a expansão do espaço;
o telescópio deve fornecer dados sem precedentes para testar modelos de cosmologia e gravidade.
A descoberta da expansão acelerada do universo em 1998, fenômeno atribuído à energia escura, é um dos grandes marcos da astrofísica moderna. O Roman pretende levar esse campo a um novo patamar de precisão.
Caça a exoplanetas e “censo” de sistemas semelhantes ao Solar
Além da cosmologia, o Nancy Grace Roman terá papel central na busca por exoplanetas. A expectativa é que o observatório:
- descubra milhares de novos planetas fora do Sistema Solar;
- faça o primeiro censo estatístico robusto de sistemas planetários semelhantes ao nosso.
Com um campo de visão muito amplo, o telescópio poderá monitorar grandes áreas do céu em busca de:
- microlentes gravitacionais, quando a passagem de um planeta diante de uma estrela distorce a luz observada;
- pequenas variações no brilho de estrelas, indícios de trânsitos planetários.
Para o cosmólogo Mustapha Ishak, da Universidade do Texas em Dallas e integrante da colaboração científica do Roman, o potencial mais interessante está justamente no que ainda não se sabe:
“Um dos aspectos mais empolgantes do Roman é o seu potencial de descoberta. Historicamente, grandes observatórios astronômicos frequentemente alcançaram suas descobertas mais importantes em áreas que os cientistas não haviam previsto antes do lançamento”, disse à Reuters.
Projeto resistiu a cortes e é lançado antes do cronograma
O Telescópio Nancy Grace Roman teve sua continuidade questionada durante o governo do ex-presidente Donald Trump, que tentou, em seus dois mandatos, reduzir ou eliminar o financiamento da missão. O Congresso dos Estados Unidos, porém, manteve os recursos e garantiu a execução do projeto.
De acordo com a Nasa, o lançamento do Roman ocorreu cerca de nove meses antes do cronograma original, resultado de avanços técnicos e cumprimento antecipado de etapas críticas.
Agora, com o observatório já em rota para o ponto de Lagrange 2, a comunidade científica internacional aguarda o comissionamento dos instrumentos e o início das primeiras campanhas de observação, que podem redefinir o entendimento humano sobre a estrutura, a origem e o futuro do universo.
TAGS: NASA, TELESCÓPIO ESPACIAL NANCY GRACE ROMAN, JAMES WEBB, HUBBLE, ENERGIA ESCURA, MATÉRIA ESCURA, COSMOLOGIA, EXOPLANETAS, FALCON HEAVY, SPACEX, ASTRONOMIA, UNIVERSO
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