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Desertificação avança no Brasil e ameaça segurança hídrica e alimentar

Degradação da terra já atinge 39 milhões de pessoas; Caatinga vira foco estratégico na COP17 e em novas políticas de recuperação de áreas de...

Degradação da terra já atinge 39 milhões de pessoas; Caatinga vira foco estratégico na COP17 e em novas políticas de recuperação de áreas degradadas

Por Matheus Salomão - Redação Tribuna do Brasil

Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates na COP17. Solo seco, altas temperaturas e ações humanas favorecem queimadas no Semiárido. Crédito: ASA / Divulgação

© ASA / Divulgação

Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem hoje em regiões ameaçadas pela desertificação, processo de degradação ambiental que reduz a capacidade do solo de reter água e sustentar vida. O fenômeno, impulsionado por ações humanas e mudanças climáticas, já alcança 18% do território nacional e ameaça diretamente a produção de alimentos, a segurança hídrica, a economia e a biodiversidade do país.

Entre os grupos mais afetados estão sertanejos, agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros, que vivem em áreas de transição entre sistemas produtivos e ecossistemas altamente vulneráveis à degradação.

O que é desertificação e onde ela avança no país

Apesar de o Brasil não ter desertos clássicos como o Atacama (Chile) ou o Saara (norte da África), o país enfrenta um cenário preocupante de desertificação. O termo descreve o processo em que uma terra antes produtiva perde gradualmente sua capacidade de:

  • infiltrar e armazenar água;
  • manter cobertura vegetal;
  • sustentar atividades agrícolas e de criação de animais.

Esse processo é provocado principalmente por:

  • desmatamento e supressão de vegetação nativa;
  • práticas agrícolas inadequadas, incluindo uso intensivo do solo sem manejo sustentável;
  • sobrepastoreio, queimadas e uso indevido de recursos naturais;
  • variações climáticas, com ciclos de seca mais intensos e prolongados.

Quanto mais avançada a degradação, maior o risco de uma região se aproximar de condições de deserto, com solo extremamente seco, pobre em nutrientes e quase sem vegetação.

Segundo boletim da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), 18% do território brasileiro está classificado como Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD). Entre 2000 e 2020, a área afetada passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de km², um aumento de 170 mil km² – equivalente à soma dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O fenômeno se concentra principalmente:

  • nos nove estados do Nordeste;
  • no norte de Minas Gerais e do Espírito Santo;
  • no nordeste do Rio de Janeiro;
  • no noroeste de Mato Grosso do Sul.

Nessas regiões predominam três tipos de clima, classificados pelo índice de aridez (relação entre chuva e evaporação):

  • Subúmido seco – índice entre 0,50 e 0,65;
  • Semiárido – entre 0,2 e 0,5;
  • Árido – entre 0,05 e 0,2.

Abaixo de 0,05, tem-se o clima hiperárido, típico de desertos, ainda não identificado no Brasil. Em 2023, foi delimitada a primeira região árida oficialmente reconhecida no país, com 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia, em estudo do Cemaden e do Inpe.

Comunidades vulneráveis sentem primeiro os impactos

Para a coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Ivi Aliana, a desertificação atinge com maior força populações vulneráveis e comunidades tradicionais.

“Elas são as primeiras a sentir os efeitos, porque lidam diretamente com os impactos na água e na biodiversidade no território”, afirma.

Ivi ressalta que o problema não se limita ao campo:

“Parece um problema distante para alguns, mas a desertificação afeta a produção de alimentos, a segurança hídrica, a economia, influencia no aumento do calor. E tudo isso vai além das áreas degradadas. Tem impactos tanto no campo quanto nas cidades brasileiras”, explica.

Secas severas em nascentes e rios, como as registradas no Rio das Balsas, no Maranhão, já comprometem o abastecimento de comunidades rurais e pressionam sistemas urbanos de fornecimento de água e alimentos.

Caatinga: bioma ameaçado e peça-chave contra o aquecimento global

Entre os seis biomas brasileiros, a Caatinga é hoje o mais pressionado pela desertificação. De acordo com o Instituto Nacional do Semiárido (Insa):

  • 11% da Caatinga apresenta degradação em nível crítico ou severo – cerca de 100 mil km²;
  • 42,6% da vegetação nativa já foi suprimida.

Proteger a Caatinga é essencial para:

  • a biodiversidade única do semiárido;
  • as comunidades que dependem do bioma;
  • o equilíbrio climático, dentro e fora do Nordeste.

O pesquisador do Insa e coordenador do Observatório da Caatinga e da Desertificação (OCA), Aldrin Martin Pérez-Marín, destaca que esse bioma tem papel decisivo na captura de carbono.

Um levantamento conduzido pelo OCA, em parceria com mais de 30 universidades e instituições nordestinas, mostrou que a Caatinga:

  • aproveita o carbono com eficiência de 58%, superior à de todos os outros biomas brasileiros;
  • mantém 72% de todo esse carbono armazenado no solo, cerca de 125 toneladas por hectare, transformando o subsolo em um verdadeiro “cofre natural de longo prazo”.

“O mais surpreendente está debaixo da terra”, afirma Aldrin. “É essa resiliência que explica o seu protagonismo: ela sabe guardar vida e equilibrar o clima mesmo nos cenários mais áridos”.

Um estudo publicado em 2025 na revista Science of the Total Environment reforçou esse protagonismo: só em 2022, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% de todo o sequestro líquido de carbono do Brasil, compensando parte importante das emissões nacionais de gases de efeito estufa.

Aldrin alerta que o Brasil precisa defender, na COP17, que a Caatinga seja mencionada explicitamente no texto científico negociado. Caso isso não ocorra, o semiárido tropical pode ficar fora do radar científico oficial da Convenção até 2030.

“A Caatinga não é o problema. Ela é parte da solução, para o Brasil e para o planeta. Diante da crise climática, a escolha é por territórios vivos: gente de pé, Caatinga em pé e futuro em pé”, resume.

Brasil leva pautas e planos à COP17 na Mongólia

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) será realizada na Mongólia, entre 17 e 28 de agosto, e terá forte presença de delegações brasileiras.

Representantes da sociedade civil e de órgãos governamentais vão debater:

  • obstáculos para frear a desertificação no Brasil;
  • soluções integradas de governança ambiental, hídrica e produtiva;
  • financiamento e cooperação internacional para recuperação de terras degradadas.

O país é signatário da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) desde 1997, assumindo compromissos de prevenção e reversão da degradação da terra.

Em março de 2026, o governo federal lançou oficialmente o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), que prevê ações articuladas entre:

  • meio ambiente e recursos hídricos;
  • educação, saúde e assistência social;
  • infraestrutura e acesso à água;
  • inclusão produtiva e inovação tecnológica.

Em junho, foi apresentado o Programa Recaatingar, voltado à recuperação produtiva de 10 milhões de hectares de terras degradadas da Caatinga nos próximos 20 anos.

Recaatingar: recuperar o solo com comunidades e tecnologia social

O biólogo Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, explica que o Recaatingar tem foco em:

  • segurança hídrica;
  • restauração socioprodutiva;
  • adaptação às mudanças climáticas;

sempre baseado no conhecimento tradicional das comunidades locais.

“O recaatingamento é uma metodologia que envolve desde a questão física do solo e da agronomia até o trabalho com as comunidades tradicionais, o modo de vida e a forma como elas manejam essa biodiversidade. A gente se inspirou nessas tecnologias sociais de convivência com o semiárido para criar o programa”, detalha.

Para Alexandre, recuperar terras degradadas é estratégico:

“Recuperar o solo degradado é um caminho para garantir trabalho, emprego e renda, ao mesmo tempo em que promove um serviço que ajuda a humanidade a enfrentar os desastres climáticos. É preciso olhar para a potência e a capacidade de resiliência desses territórios.”

Aldrin Pérez-Marín confirma a eficácia do modelo. Mesmo antes da formalização do programa, o recaatingamento já havia gerado:

  • 36 mil hectares em conservação;
  • 2 mil hectares em recuperação ativa;
  • 15 sistemas de agrocaatinga;
  • 31 planos de manejo implementados;
  • mais de 280 enxames de abelhas nativas reintroduzidos na paisagem.

Segundo o pesquisador, o manejo agrossilvipastoril da Caatinga:

  • consegue quadruplicar a oferta de forragem sem derrubar o bioma;
  • eleva a biomassa em cerca de 85% em sistemas agroflorestais;
  • chega a segurar 100 toneladas de solo por hectare por ano contra a erosão.

“A rotação de culturas e as barragens subterrâneas devolvem água, carbono e fertilidade a esse cofre subterrâneo”, afirma.

Soluções de convivência com o semiárido: cisternas e sementes adaptadas

A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), rede com mais de 3 mil organizações da sociedade civil, atua há mais de 25 anos desenvolvendo tecnologias sociais para comunidades afetadas pela seca e pela desertificação.

Entre as principais iniciativas estão os programas de captação de água da chuva, com:

  • construção de cisternas domiciliares para garantir água potável;
  • instalação de pequenas barragens e estruturas de armazenamento para produção de alimentos e consumo de animais.

A ASA também fortalece:

  • o uso de sementes crioulas e variedades adaptadas ao clima da Caatinga;
  • técnicas agrícolas agroecológicas, que respeitam a biodiversidade e reduzem a pressão sobre o solo.

Para Ivi Aliana, a recuperação dos territórios não pode ignorar quem vive neles:

“Não vai ser helicóptero jogando sementes em um território desabitado que vai recuperar essa área. O combate à desertificação passa pela agricultura familiar, pela agroecologia e pelas pessoas vivendo e cuidando desses territórios”, afirma.

Cobertura especial da COP17 e impactos para o Brasil

A Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia, em parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com bolsas de jornalismo para cobrir o evento.

Nos próximos dias, serão publicadas reportagens especiais sobre:

  • as negociações internacionais da COP17;
  • o papel do Brasil na agenda global de combate à desertificação;
  • como as decisões tomadas na conferência podem afetar o semiárido brasileiro, a Caatinga e as comunidades vulneráveis.

Em um cenário de avanço da degradação da terra, as escolhas de hoje sobre políticas públicas, manejo produtivo e conservação de biomas vão definir se o país conseguirá manter seus territórios vivos, com água, alimentos e clima equilibrado para as próximas gerações.

TAGS: DESERTIFICAÇÃO, SEMIÁRIDO, CAATINGA, MUDANÇAS CLIMÁTICAS, SEGURANÇA HÍDRICA, SEGURANÇA ALIMENTAR, PAB-BRASIL 2025–2043, PROGRAMA RECAATINGAR, ASA, COP17, UNCCD, BIOMAS BRASILEIROS, AGROECOLOGIA, AGRICULTURA FAMILIAR, BRASIL

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