Governo aposta em renegociação de dívidas para aliviar pressão financeira causada pela Selic elevada e pelos altos juros bancários no Brasil...
Governo aposta em renegociação de dívidas para aliviar pressão financeira causada pela Selic elevada e pelos altos juros bancários no Brasil
Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil
O aumento do endividamento das famílias brasileiras, impulsionado pelos juros elevados e pelo alto custo do crédito no país, levou o governo federal a lançar uma nova etapa do programa Desenrola Brasil. Batizada de Novo Desenrola, a iniciativa busca facilitar a renegociação de dívidas, ampliar o acesso ao crédito e aliviar a pressão financeira enfrentada por milhões de brasileiros.
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Economistas avaliam que a manutenção da taxa Selic em patamar elevado, somada aos altos spreads bancários praticados pelas instituições financeiras, vem dificultando o orçamento das famílias e ampliando os índices de inadimplência no país.
Brasil possui um dos maiores juros reais do mundo
Atualmente, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de juros reais — descontada a inflação — com taxa de 9,3%, ficando atrás apenas da Rússia, segundo levantamento do site especializado Moneyou.
Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando os juros básicos em 14,5% ao ano. Apesar do corte, o patamar continua sendo considerado elevado por especialistas e setores produtivos da economia.
A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, afirma que o impacto da Selic alta se reflete diretamente nos empréstimos bancários e no aumento das dívidas das famílias.
“Os juros dos empréstimos estão muito altos. Isso tem uma relação direta com o endividamento das pessoas”, destacou a economista.
Endividamento das famílias bate recorde no Brasil
Os dados mais recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o percentual de famílias endividadas no Brasil chegou a 80% em abril, atingindo nova máxima histórica.
O levantamento aponta ainda que quase 30% das famílias possuem contas em atraso, cenário que afeta principalmente a população de menor renda.
Entre os brasileiros que recebem até três salários mínimos, o índice de endividamento chegou a 83,6%, enquanto 38,2% enfrentam inadimplência.
Especialistas apontam que o aumento do custo de vida, aliado à precarização do mercado de trabalho e à alta dos juros, vem levando famílias a recorrerem cada vez mais ao crédito para cobrir despesas básicas do cotidiano.
Spread bancário brasileiro lidera ranking mundial
Outro fator apontado como responsável pelo avanço do endividamento é o elevado spread bancário brasileiro — diferença entre os juros pagos pelos bancos e aqueles cobrados dos consumidores.
Segundo dados do Banco Central, o spread bancário no Brasil chegou a 34,6 pontos percentuais em março, muito acima da média global de aproximadamente 6 pontos percentuais calculada pelo Banco Mundial.
A economista Juliane Furno, da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que o Brasil possui um dos sistemas de crédito mais caros do planeta.
“O Brasil aparece entre os países com maior spread bancário do mundo. Isso cria um ciclo de inadimplência e juros elevados”, afirmou.
Dados internacionais colocam o país na liderança mundial das taxas de spread, à frente de nações como República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa e Angola.
Juros do cartão de crédito ultrapassam 400% ao ano
A situação se torna ainda mais grave nas modalidades de crédito consideradas mais caras, como o rotativo do cartão de crédito. Segundo o Banco Central, os juros dessa modalidade podem ultrapassar 400% ao ano.
Além disso, os bancos cobram atualmente juros médios de 61% ao ano das pessoas físicas, enquanto as empresas pagam taxas médias de 24%.
Para a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Mello de Malta, esse cenário provoca um efeito de “bola de neve” no orçamento familiar.
“As famílias acabam buscando novos empréstimos para pagar dívidas anteriores e vão se endividando progressivamente”, alertou a economista.
Governo aposta no Novo Desenrola para recuperar crédito
Diante desse cenário, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil com foco na renegociação de dívidas de famílias, estudantes e pequenos empreendedores.
A nova etapa do programa terá duração de 90 dias e prevê descontos que podem chegar a 90%, além de juros reduzidos e possibilidade de utilização do FGTS para abatimento de débitos.
A expectativa do governo é reduzir a inadimplência, estimular o consumo e permitir que milhões de brasileiros recuperem acesso ao crédito formal.
Especialistas avaliam, porém, que medidas estruturais envolvendo redução sustentável dos juros e revisão do sistema financeiro continuarão sendo fundamentais para conter o avanço do endividamento no país.
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