TRUE

Latest Posts

TRUE
{fbt_classic_header}

Últimas Notícias:

latest

Destaque TOPO - Campanha CLDF - DENGUE

Horta comunitária no Morro do Salgueiro resgata saberes ancestrais e fortalece cidadania no Rio

Iniciativa do programa Hortas Cariocas produz alimentos sem agrotóxicos, recupera área de risco e transforma memória e cuidado em política s...

Iniciativa do programa Hortas Cariocas produz alimentos sem agrotóxicos, recupera área de risco e transforma memória e cuidado em política socioambiental

Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil

Há um ano, a rotina de Vera Lúcia Silva de Souza, 74 anos, começa antes do sol esquentar o alto do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro. Depois de molhar as plantas em casa, ela desce a pé a ladeira íngreme da favela até a parte baixa da comunidade, onde ajuda a cuidar de uma horta comunitária que complementa a renda, garante alimento saudável aos vizinhos e preserva saberes ancestrais sobre ervas medicinais e plantas alimentícias.

Rio de Janeiro (RJ), 26/03/2026 - Horta comunitária do programa Hortas Cariocas, no Salgueiro. Hortas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

O espaço integra o programa Hortas Cariocas, da Prefeitura do Rio, que hoje mantém 84 hortas em comunidades e escolas. Em 2025, segundo a Secretaria Municipal de Ambiente e Clima, essas áreas produziram 74 toneladas de alimentos, sendo 700 kg colhidos apenas no Salgueiro.

Coletivo de erveiras transforma tradição em resistência

Vera, conhecida como Tia Vera, integra o Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, criado em 2019. O grupo se dedica a catalogar espécies, registrar saberes populares e manter vivas plantas conhecidas há décadas pelos moradores, mas pouco valorizadas “no asfalto”.

Ela explica que prefere trabalhar na terra nas primeiras horas do dia, quando a temperatura é mais amena e a água não queima as plantas. “Molhamos primeiro e limpamos para replantar. Por causa do verão, muita coisa fracassou. Aqui pega muito sol”, relata.

A relação de Tia Vera com as plantas vem da infância, quando os remédios caseiros eram preparados pela mãe e pela avó com folhas e raízes colhidas no próprio morro. “Minha mãe e minha avó me ensinaram a plantar, a fazer um chá, um xarope, um tempero. Eu me lembro bem”, conta.

Casa-refúgio cercada de verde no alto do morro

Localizada nas franjas do Parque Nacional da Tijuca, a casa de Tia Vera é cercada de árvores — um cenário incomum nas favelas cariocas, que costumam registrar temperaturas mais altas que a média da cidade, em função da falta de áreas verdes e da forte urbanização.

Ali, os canteiros de ervas transformaram sua casa em referência para quem busca plantas medicinais ou mudas para cultivar. “Está sentindo esse cheiro? São as minhas plantas. Tem saião, alfavaca, assa-peixe, ora-pro-nóbis, do grande, que dá uma flor rosa, bem bonita”, enumera.

Com o quintal tomado por espécies variadas, ela distribui mudas a quem pede. “Tem muita muda aqui. Umas, a gente planta no mato, outras, quando me pedem, eu doo um mucadinho”, diz. O espaço reduzido nas casas vizinhas faz com que muitas famílias dependam de iniciativas como a horta comunitária para acessar esses alimentos e ervas.

Diversidade alimentar além das prateleiras do supermercado

A horta agroecológica do Salgueiro, sem placa na entrada, é conhecida sobretudo pelos moradores da própria comunidade. Ali são cultivadas ervas medicinais, hortaliças e legumes, parte dos quais é doada para a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias, ampliando a oferta de alimentos frescos para crianças e adolescentes.

Em um vídeo sobre o projeto, o integrante do coletivo Marcelo Rocha chama atenção para a diferença entre a pouca variedade encontrada nos supermercados e a abundância de espécies comestíveis tradicionais cultivadas nos quintais e hortas comunitárias.

“É comum ir ao supermercado e encontrar apenas alface, cheiro-verde e rúcula. Mas temos uma infinidade de plantas comestíveis conhecidas da minha avó, da minha bisavó, como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba, serralha”, afirma.

Segundo os cuidadores, a horta também virou referência para a rede de saúde local. “Tem gente que precisa especificamente de uma verdura ou legume. Aí, o pessoal do postinho manda vir buscar aqui conosco”, conta Walace Gonçalves de Oliveira, 66 anos, o Tio Dadá, também membro do coletivo.

De área removida e tomada pelo lixo a horta produtiva

O terreno hoje ocupado pela horta comunitária surgiu após uma desapropriação. Em uma encosta íngreme, uma vila inteira de casas foi removida por risco de deslizamento. Após a remoção, a área ficou tomada por entulho e lixo, até que o coletivo decidiu transformar o local em espaço produtivo, em parceria com o programa Hortas Cariocas.

De chapéu e enxada em punho, Tio Dadá se orgulha da mudança de cenário. “A gente tem aqui berinjela, alface, chicória, cenoura. Temos bastante coisa. Tem também limão e tem uma laranja que quase ninguém conhece, vermelha por dentro, a laranja sanguínea, muito boa”, descreve.

Ele também faz questão de destacar preferências culinárias, como o uso do ora-pro-nóbis em pratos do dia a dia. “Ora-pro-nóbis é muito bom no franguinho, na carne assada. Eu não uso no chá, não gosto”, brinca.

A presença de pés de limão, árvores frutíferas e canteiros diversos, além de recuperar uma área antes degradada, contribui para melhorar o microclima local e atrair biodiversidade — como borboletas e outros insetos polinizadores.

Hortas urbanas como política de inclusão e segurança alimentar

De acordo com a Prefeitura do Rio, o programa Hortas Cariocas vem reduzindo a ocupação irregular de terrenos ociosos, ampliando a inclusão social e oferecendo alimentos livres de agrotóxicos e transgênicos em territórios marcados pela vulnerabilidade social.

A secretária municipal de Ambiente e Clima, Tainá de Paula, destaca que o apoio técnico às hortas é permanente. “Temos uma entrega ininterrupta de sementes, que ficam sempre disponíveis para retirada”, afirma, ressaltando que o programa fornece insumos, assistência e orientação para garantir a continuidade dos projetos.

Ao combinar produção de alimentos, resgate de saberes tradicionais, geração de renda e ocupação qualificada do território, a horta do Morro do Salgueiro sintetiza uma política que vai além da agricultura urbana: cria laços comunitários, fortalece a cidadania e coloca a memória das erveiras e erveiros no centro de uma agenda de desenvolvimento socioambiental.


TAGS: HORTAS CARIOCAS, HORTA COMUNITÁRIA, MORRO DO SALGUEIRO, RIO DE JANEIRO, AGROECOLOGIA, PLANTAS MEDICINAIS, SEGURANÇA ALIMENTAR, FAVELAS CARIOCAS, PREFEITURA DO RIO, AMBIENTE E CLIMA, AGRICULTURA URBANA, CIDADANIA, MEMÓRIA ANCESTRAL, ORA-PRO-NÓBIS, POLÍTICAS PÚBLICAS URBANAS

Nenhum comentário

Obrigado por contribuir com seu comentário! Ficamos felizes por ser nosso leitor! Seja muito bem vindo! Acompanhe sempre as nossas notícias! A equipe Tribuna do Brasil agradece!

GDF DETRAN

Oferecimento Tribuna do Brasil & Agência Brasil