Biblioteca Nacional Digital disponibiliza ao público as versões regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul, ampliando o acesso à história de...
Biblioteca Nacional Digital disponibiliza ao público as versões regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul, ampliando o acesso à história de um dos jornais mais influentes da imprensa nacional
Por Anderson Miranda - Redação Tribuna do Brasil
Um dos maiores símbolos da imprensa alternativa brasileira acaba de ganhar um importante reforço em sua preservação histórica. As edições regionais de São Paulo e do Rio Grande do Sul do lendário jornal O Pasquim foram digitalizadas e disponibilizadas ao público pela Biblioteca Nacional Digital, permitindo que novas gerações conheçam um capítulo pouco explorado da trajetória do periódico que marcou época durante a ditadura militar.

A iniciativa reúne 114 exemplares publicados entre 1986 e 1987, período em que o jornal buscou expandir sua atuação para além do Rio de Janeiro. O acervo complementa as 1.072 edições da versão original carioca, já disponíveis para consulta online, formando um dos mais importantes registros da imprensa alternativa brasileira.
O jornal que desafiou a censura e marcou uma geração
Fundado em 1969, em pleno regime militar, O Pasquim tornou-se referência nacional ao adotar uma linguagem irreverente, crítica e bem-humorada para abordar política, comportamento, cultura e os principais acontecimentos do país.
Em um período marcado pela censura à imprensa, o jornal conquistou leitores ao desafiar limites impostos pelo regime e oferecer uma visão alternativa dos fatos, frequentemente utilizando o humor como ferramenta de crítica social.
Grandes nomes do jornalismo, da literatura e do cartum brasileiro passaram por suas páginas. Entre eles estavam figuras como Millôr Fernandes, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Paulo Francis, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Ruy Castro, profissionais que ajudaram a construir a identidade única do periódico.
Mais do que um jornal, O Pasquim tornou-se um fenômeno cultural e um símbolo da resistência intelectual durante os anos mais duros da repressão política.
A chegada das edições regionais
Em meados da década de 1980, já em um cenário de redemocratização do país, surgiu a ideia de criar versões regionais do jornal.
Embora o auge de circulação e influência tivesse ficado para trás, admiradores da publicação acreditavam que ainda havia espaço para levar a proposta editorial do Pasquim a novos públicos.
Em São Paulo, a iniciativa foi liderada pelo jornalista Paulo Markun, acompanhado por Manoel Canabarro e Dante Matiussi. No Rio Grande do Sul, o projeto ganhou força pelas mãos do jornalista Flávio Braga, que viajou até o Rio de Janeiro para convencer Jaguar a autorizar uma edição gaúcha.
O resultado foram jornais que preservavam a essência crítica e satírica do original, mas com forte foco em pautas regionais e personagens locais.
O sotaque paulista e gaúcho da irreverência
As franquias regionais tinham uma característica marcante: abordavam os temas de cada estado sem abandonar o estilo irreverente que transformou O Pasquim em referência nacional.
No Rio Grande do Sul, assuntos ligados à cultura local, ao comportamento e aos costumes regionais apareciam frequentemente nas páginas do jornal, muitas vezes sob uma ótica provocativa e bem-humorada.
Em São Paulo, o foco recaía sobre a intensa movimentação política que caracterizou os primeiros anos da redemocratização brasileira.
As disputas eleitorais, os debates ideológicos e figuras políticas de destaque da época tornaram-se alvos constantes da crítica bem-humorada da publicação.
Personalidades como Paulo Maluf, Orestes Quércia e Eduardo Suplicy figuravam regularmente entre os temas abordados pela equipe editorial paulista.
Espaço para novos talentos
Outro diferencial das versões regionais foi a valorização de profissionais locais.
As páginas do jornal abriram espaço para cartunistas, ilustradores, jornalistas e articulistas que posteriormente se tornariam referências em suas áreas de atuação.
Em São Paulo, nomes como Laerte, Jô Soares, Fernando Morais, Augusto Nunes, Gabriel Priolli e Alberto Dines colaboraram com a publicação.
No Rio Grande do Sul, destacaram-se profissionais como Edgard Vasquez, Renato Canini, Augusto Franke Bier e Reverbel, entre outros talentos que ajudaram a construir a identidade editorial da versão gaúcha.
O desafio de sobreviver após a ditadura
Apesar da força da marca e da qualidade editorial, as edições regionais enfrentaram um desafio que se tornaria determinante para seu encerramento: a sustentabilidade financeira.
Ao contrário dos anos 1970, quando o jornal atingia tiragens superiores a 200 mil exemplares impulsionado pelo contexto político da ditadura, o Brasil vivia uma nova realidade.
Com a redemocratização, a imprensa tradicional passou a incorporar temas e debates antes restritos aos veículos alternativos, reduzindo o espaço de atuação de publicações como O Pasquim.
Além disso, muitos anunciantes ainda demonstravam resistência em associar suas marcas a um jornal conhecido pela irreverência e pelas críticas contundentes.
O resultado foi uma curta trajetória das versões regionais, que permaneceram em circulação por pouco mais de um ano.
Um resgate histórico para futuras gerações
A digitalização do acervo foi coordenada voluntariamente por Fernando Coelho dos Santos, admirador declarado da história do jornal e amigo de diversos profissionais que ajudaram a construir sua trajetória.
Após se aposentar, Fernando dedicou anos ao trabalho de recuperação, organização e preservação das edições históricas, em parceria com a Biblioteca Nacional.
O projeto envolveu um extenso processo de localização dos exemplares, digitalização e catalogação do material.
Segundo ele, apenas duas edições regionais ainda não foram encontradas, o que faz com que o acervo disponível represente cerca de 98% das publicações de São Paulo e do Rio Grande do Sul.
Preservando a memória da imprensa brasileira
A disponibilização das edições regionais reforça a importância da preservação documental para a compreensão da história da comunicação no Brasil.
Ao reunir milhares de páginas produzidas ao longo de diferentes períodos políticos, sociais e culturais, o acervo oferece uma visão privilegiada da evolução do jornalismo nacional e da liberdade de expressão no país.
Mais do que um registro histórico, O Pasquim permanece como símbolo de criatividade, irreverência e independência editorial, características que continuam inspirando profissionais da comunicação e pesquisadores décadas após sua circulação.
O acervo completo pode ser consultado gratuitamente na Biblioteca Nacional Digital, permitindo que leitores de todo o país revisitem um dos capítulos mais marcantes da imprensa brasileira.
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